................ (recorte parcial do que foi dito na imprensa e páginas eletrônicas sobre a obra do escritor) ...
A TIMIDEZ DO MONSTRO (OITO)
O ESTADO DE SÃO PAULO (POR PAULO BENTANCUR)"PAULO SCOTT SACODE O GÊNERO COM A TIMIDEZ DO MONSTRO
Não adianta, a poesia bailou. A festa promovida por Paulo Scott, que recém-lançou o desconcertante romance Voláteis e que se prepara para reincidir num gênero que ele definitivamente está sacudindo, a poesia (Senhor Escuridão, a sair na próxima Bienal Internacional do Livro de São Paulo), é regada a substâncias que não identificamos e, no entanto, não nos fazem sonhar. O sonho vinha de antes, do lirismo sem liberdade e acomodado que nos deixava adormecidos ou nos distraía com alucinações pseudo-adultas. A Timidez do Monstro nos dá o safanão inadiável e nos carrega para encarar uma manhã desfigurada. São 57 poemas roendo a corda do relógio, instalando-se, como um vírus, felizmente já identificado. Há toda uma literatura sobre esse vírus: Histórias Curtas para Domesticar as Paixões dos Anjos e Atenuar os Sofrimentos dos Monstros, Ainda Orangotangos, mais o romance já citado e, agora... isto! Sim, porque como podemos classificar A Timidez...? Nada tímido, a começar pelas fortes ilustrações de Guilherme Pilla, a impedir que o leitor tome fôlego entre um poema e outro. O "eu lírico" encontra em Scott uma capacidade assombrosa de extirpar de si mesmo, não a consciência, mas a falsa consciência, recoberta de um típico traje a passeio, em geral posto para lisonjear o leitor pela performance e exemplar comportamento do poeta. "Monstro" é uma facilidade que Scott se permite, nos dando uma chance. Mas é só. Antes ele já dispôs a armadilha na palavra "timidez", autenticada pelos versos breves, ressecados de gordura verbal ou imagética. Estamos não numa clínica, ou num cemitério, ou na rua sem defesa. Estamos diante, não do espelho e sua mensagem óbvia, cansativa; o cenário - não há cenário. Chega uma hora (lá pelo quinto poema) que precisamos de ar, que decidimo-nos por reler o livro. E recomeçamos, tensos, tontos, tomados de uma febre que é antiga na vida e nova na literatura: eis a contribuição de Paulo Scott e sua poesia de sintaxe descarnada, de vocabulário espesso e inesperado. Essa festa regada a procedimentos nada recomendáveis (e, no entanto, tão saudáveis para um gênero que pede traição) convida para orador a terceira pessoa. Naturalmente, o "eu" escreve sua crônica. Mas há a onisciência no que é "narrado", apresentando o poema como um espaço frágil e blindado ao mesmo tempo. "Decifra-me, devorado", ordena o poeta. De resto, o distanciamento de quem assiste o pesadelo da consciência muda ou tentando retocar gritos que nem ela escuta é a voz recorrente. Em verdade, não há recorrência, nem monstro, nem timidez. Quem não engoliu essas pedras com musgo, vai engolir agora. Simplesmente porque as conhece - não tanto da literatura antes de Scott - , mas da existência e seus sinais, pouco identificáveis se nos faltam senhas como, por exemplo, A Timidez do Monstro. O poeta usa o verbo: seu poema convive com a ação - mesmo a inominável. O poeta usa o presente, o imperativo. Nada de reminiscências. Nada de vagos acenos para gestos largos e tímidos. (Daí a armadilha da "timidez"). O poeta refere-se a cenas próximas, próximas demais, íntimas sem a lantejoula inútil e superada da intimidade com seu pudor transparente. Não. O poeta Scott trata a poesia como se nela nada existisse além do vórtice do que explode e é abafado pelo verso. O mundo não é gemido. Há pressa na monstruosidade, ainda que haja o peso de carregá-la. A Timidez do Monstro leva em seu bojo (leia o poema "estojos", aí o mostro tornado vítima) as duas caras que nos sobraram - se duas, nenhuma - depois de arrancadas todas as máscaras."
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