Paulo Scott
................ (recorte parcial do que foi dito na imprensa e páginas eletrônicas sobre a obra do escritor) ...
Maio 10, 2006
SENHOR ESCURIDÃO (NOVE)
REVISTA CULT"(...) com certeza leitores vão estranhar os textos de Scott, achando que aquilo não é poesia – em parte o preconceito decorre da idéia romântica do poema, bobagem que continua a persistir. Deve-se lembrar que muitos poemas considerados como 'anti', quando apareceram, se tornaram canônicos, como foi o caso de Drummond e aquela pedra."
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Maio 06, 2006
SENHOR ESCURIDÃO (OITO)
CAPA (POR PAULO CAETANO)
SENHOR ESCURIDÃO (SETE)
JORNAL O POPULAR DE GOIÂNIA (POR ROGÉRIO BORGES)"O LADO POUCO APRAZÍVEL DA VIDA É RETRATADO DE FORMA FORTE E SUTIL EM
SENHOR ESCURIDÃO, NOVO LIVRO DE POEMAS DO AUTOR GAÚCHO PAULO SCOTT
A poesia como veículo de declarações de amor, de versos singelos ou caudalosamente românticos, de louvação à vida, à natureza, à entidade humana não é a poesia do autor gaúcho Paulo Scott. Escritor jovem, ele prefere fazer um outro uso do poema. A grande característica de Senhor Escuridão, sua mais recente obra no gênero, publicada pela editora Bertrand Brasil, é mostrar que também existe uma espécie de lirismo feio, sem idealizações, que abre as feridas da sociedade sem dó, pouco importando se o choque será forte demais. Quem lê os poemas do livro, compostos em sua maioria com concisão e até de forma seca, se depara com uma visão pouco abonadora do homem e de seus atos, de seus segredos e podridões, de suas angústias e fantasias, de suas práticas e costumes. As relações entre as pessoas ganham um contorno triste e nada elogiável, numa constante negociação em que a mais-valia dita o comportamento, em que o egoísmo está em quase tudo, em que os valores éticos são simplesmente jogados na latrina, sem remorsos ou punições. Um dos poemas mais emblemáticos disso é Massa Instantânea. Com apenas três versos, o autor aborda, de forma bastante direta, a questão da injustiça social em uma de suas facetas mais cruéis. Mas essa abordagem não é panfletária, gratuita, não traz em seu cerne o afobamento de passar uma mensagem política e socialmente engajada. Ela é quase de um cronista, de um observador mais atento, que não se conforma com uma visão superficial, rasa. Ele vai mais fundo, tocando até certo ponto no lírico, em que a crítica acaba por funcionar de uma maneira mais eficaz. Muitos dos poemas são totalmente imagéticos. Curtos, vários deles são apenas uma imagem, caso de Anabolismo. Não é exatamente uma mensagem que o autor passa nesses momentos e sim um cutucão que ele dá no leitor, chamando-o à interpretação. Facilidade não é o forte de Paulo Scott. Em certa medida, o autor chega a ser hermético, com referências que, a despeito de poderem ser tomadas num plano universal, não disfarçam sua origem pessoal. Isso, porém, não é o maior obstáculo para o entendimento mais rápido dos versos. Essa característica é intrínseca, está nos genes da póetica de Scott e não apenas em sua temática. Scott fala de assuntos muito tristes em Senhor Escuridão. Um deles é a pedofilia e o abuso sexual dentro de casa. Isso está mais ou menos explícito em Odor de Filho Branco, em que uma cena familiar cotidiana é o prenúncio de uma relação incestuosa e covarde. Em Campo de Força que te Observa, a prostituição das ruas e seus cenários ganham tradução nos versos, descrição em que os detalhes fornecem ao imaginário o retrato do ambiente em que a dignidade humana perde muito de seu sentido. O humor é outra arma cáustica que o autor utiliza para enfatizar que a sociedade não anda nada bem. Logo na capa do livro há uma figura, que se parece com o Nosferatu, de Max Schreck, clássico de 1922, que também guarda semelhanças – sem ofensas – com a foto do próprio Scott, estampada na orelha do livro. É uma caricatura que representa a admissão de que todos nós temos nosso lado feio que tentamos esconder a todo custo. Em outro poema, Intelectuais, o escritor tira um merecido sarro da arrogância erudita de parte de nossas elites.Vez ou outra, há uma concessão ao romantismo, como no poema Frank, versos sobre dois amigos que estão em dúvida se devem começar a namorar. Afinal, podem até ser poucas, mas o mundo ainda conserva algumas belezas."
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SENHOR ESCURIDÃO (SEIS)
GAZETA DO POVO DE CURITIBA (POR IRINÊO NETTO)"As chances de um poeta talentoso ser publicado por uma grande editora no Brasil são pequenas. Microscópicas até. Não importa a qualidade do trabalho. Leitores de poesia são a minoria da minoria. O extremo estreito do funil que representa a parte da população interessada em literatura de imaginação. Como raio que cai duas vezes no mesmo lugar, o feito de Paulo Scott (além de escrever bem como poucos) foi publicar, somente neste ano, dois livros de poesia por duas grandes editoras brasileiras: A Timidez do Monstro (Objetiva, 112 págs. com ilustrações de Guilherme Pilla, R$ 29,90), seguido de Senhor Escuridão (Bertrand Brasil, 160 págs., R$ 25). Ao tratar sobretudo da solidão e do amor, o gaúcho passa também pela prosa – é autor dos contos de Ainda Orangotangos (2003) e do romance Voláteis (2005)."
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SENHOR ESCURIDÃO (CINCO)
FOLHA DE SÃO PAULO - EDIÇÃO ESPECIAL - 19ª BIENAL DO LIVRO DE SP"O autor nos esmaga e nos paralisa com o inusitado de seus versos cruéis, capazes de enxergar aspectos da realidade que escaparam mesmo aos grandes poetas."
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SENHOR ESCURIDÃO (QUATRO)
JORNAL EXTRA CLASSE (POR CÉSAR FRAGA)"Scott utiliza as palavras menos como punhais contra o leitor e mais como um bisturi, que disseca o cotidiano, na maioria vezes feio, em busca de coisas belas a serem reveladas por debaixo das camadas mais aparentes."
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SENHOR ESCURIDÃO (TRÊS)
CORREIO BRAZILIENSE (POR PAULO PANIAGO)"O perfil profissional de Paulo Scott, até o final do ano morador de Porto Alegre, tinha tudo para não ser de poeta: é professor de Direito Econômico na Pontifícia Universidade Católica, consultor na área de contratos públicos, finanças públicas e proteção do mercado. Mas evidente que não se pode fiar em aparências. O lançamento agora de Senhor escuridão (Bertrand Brasil); o projeto Na TáBUA, que divulga cartazes literários e ilustrados em cafés, livrarias; mais sólida trajetória de livros (outros dois de poesia, um de contos, Ainda orangotangos, um romance, Voláteis), dizem o contrário. O livro de contos está em adaptação para virar longa-metragem, produzido por Clube Silêncio, a segunda maior produtora do Rio Grande do Sul, e dirigido por Gustavo Spolidoro. A pergunta para ele foi, poesia cura ou agrava a situação? “Os dois. Às vezes, é preciso levar o paciente até as últimas conseqüências para a cura vir”, responde. Depois modula: “Poesia ajuda a diminuir a solidão a que estamos condenados todos nós, mostra que as loucuras da emoção nada são além do que o próprio viver; poesia é uma ponte, daí, mesmo agravando, cura”. Paulo Scott escreve como quem dá navalhadas, sem dó. Num dos poemas, “Roteiro”, enumera temas, quase memórias, “as tripas dos sonhos e pesadelos, talvez, o que sobrou de algumas batalhas pessoais, as chagas, vai ver nem isso” e ainda, “uma tensão de confessionário e uma dúvida sobre a possibilidade da mentira”. Deixou alguns poemas de fora, cujos temas ainda são espinhosos demais, motivado também por ele não estar “pronto para enfrentá-los por aí, existindo”. Ou seja, tem mais chumbo grosso no horizonte."
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SENHOR ESCURIDÃO (DOIS)
FOLHA DE SÃO PAULO (POR MANUEL DA COSTA PINTO)"(...) Os poemas de Scott estão sempre no limite da inteligibilidade, com imagens que nascem menos das correspondências entre som e sentido que do atrito (...) Scott passa ao largo dos valores dominantes da poesia brasileira (contenção lírica, construtivismo); (...)"
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SENHOR ESCURIDÃO (UM)
APRESENTAÇÃO DOS EDITORES"A escrita violenta e poética de Paulo Scott vem sendo considerada uma das mais instigantes e criativas da literatura brasileira contemporânea; seus conteúdos e formas resultam em labirintos densos, cuja lógica própria (às vezes, de um hermetismo fascinante) levará de maneira invulgar ao novo e ao estranho, redesenhando e confrontando dilemas que - envolvidos de amor, maldade, vazio, esperança - são os dele e também os de todos nós. Quem não gosta de poesia vai gostar demais deste livro. Já quem gosta vai ficar paralisado por uma febre que só é trêmula no íntimo. Um dos grandes méritos de Senhor Escuridão é que o leitor, mesmo atento, será pego desprevenido. Não existe defesa diante da força das imagens que estalam no miolo do livro, entre a capa e a contracapa. Porta de entrada, não para o inferno, mas para o vácuo, o buraco negro, a fagulha extrema que significa não apenas existir, porém, mais do que isso, viver: ação vertiginosa, movimento brusco em demasia no qual a paz já não respira."
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Maio 03, 2006
A TIMIDEZ DO MONSTRO (NOVE)
CAPA (POR RAUL LOUREIRO), ILUSTRAÇÕES (POR GUILHERME PILLA)
A TIMIDEZ DO MONSTRO (OITO)
O ESTADO DE SÃO PAULO (POR PAULO BENTANCUR)"PAULO SCOTT SACODE O GÊNERO COM A TIMIDEZ DO MONSTRO
Não adianta, a poesia bailou. A festa promovida por Paulo Scott, que recém-lançou o desconcertante romance Voláteis e que se prepara para reincidir num gênero que ele definitivamente está sacudindo, a poesia (Senhor Escuridão, a sair na próxima Bienal Internacional do Livro de São Paulo), é regada a substâncias que não identificamos e, no entanto, não nos fazem sonhar. O sonho vinha de antes, do lirismo sem liberdade e acomodado que nos deixava adormecidos ou nos distraía com alucinações pseudo-adultas. A Timidez do Monstro nos dá o safanão inadiável e nos carrega para encarar uma manhã desfigurada. São 57 poemas roendo a corda do relógio, instalando-se, como um vírus, felizmente já identificado. Há toda uma literatura sobre esse vírus: Histórias Curtas para Domesticar as Paixões dos Anjos e Atenuar os Sofrimentos dos Monstros, Ainda Orangotangos, mais o romance já citado e, agora... isto! Sim, porque como podemos classificar A Timidez...? Nada tímido, a começar pelas fortes ilustrações de Guilherme Pilla, a impedir que o leitor tome fôlego entre um poema e outro. O "eu lírico" encontra em Scott uma capacidade assombrosa de extirpar de si mesmo, não a consciência, mas a falsa consciência, recoberta de um típico traje a passeio, em geral posto para lisonjear o leitor pela performance e exemplar comportamento do poeta. "Monstro" é uma facilidade que Scott se permite, nos dando uma chance. Mas é só. Antes ele já dispôs a armadilha na palavra "timidez", autenticada pelos versos breves, ressecados de gordura verbal ou imagética. Estamos não numa clínica, ou num cemitério, ou na rua sem defesa. Estamos diante, não do espelho e sua mensagem óbvia, cansativa; o cenário - não há cenário. Chega uma hora (lá pelo quinto poema) que precisamos de ar, que decidimo-nos por reler o livro. E recomeçamos, tensos, tontos, tomados de uma febre que é antiga na vida e nova na literatura: eis a contribuição de Paulo Scott e sua poesia de sintaxe descarnada, de vocabulário espesso e inesperado. Essa festa regada a procedimentos nada recomendáveis (e, no entanto, tão saudáveis para um gênero que pede traição) convida para orador a terceira pessoa. Naturalmente, o "eu" escreve sua crônica. Mas há a onisciência no que é "narrado", apresentando o poema como um espaço frágil e blindado ao mesmo tempo. "Decifra-me, devorado", ordena o poeta. De resto, o distanciamento de quem assiste o pesadelo da consciência muda ou tentando retocar gritos que nem ela escuta é a voz recorrente. Em verdade, não há recorrência, nem monstro, nem timidez. Quem não engoliu essas pedras com musgo, vai engolir agora. Simplesmente porque as conhece - não tanto da literatura antes de Scott - , mas da existência e seus sinais, pouco identificáveis se nos faltam senhas como, por exemplo, A Timidez do Monstro. O poeta usa o verbo: seu poema convive com a ação - mesmo a inominável. O poeta usa o presente, o imperativo. Nada de reminiscências. Nada de vagos acenos para gestos largos e tímidos. (Daí a armadilha da "timidez"). O poeta refere-se a cenas próximas, próximas demais, íntimas sem a lantejoula inútil e superada da intimidade com seu pudor transparente. Não. O poeta Scott trata a poesia como se nela nada existisse além do vórtice do que explode e é abafado pelo verso. O mundo não é gemido. Há pressa na monstruosidade, ainda que haja o peso de carregá-la. A Timidez do Monstro leva em seu bojo (leia o poema "estojos", aí o mostro tornado vítima) as duas caras que nos sobraram - se duas, nenhuma - depois de arrancadas todas as máscaras."
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A TIMIDEZ DO MONSTRO (SETE)
JOÃO GILBERTO NOLL (ESCRITOR)"Paulo Scott é de fato um poeta profundamente insólito, insólito não para meramente confundir, mas porque essa é sua maneira autêntica e vertical de experimentar o misterioso estar das coisas. Cada dia fica mais claro para mim sua condição necessária para o ativismo poético: um hermetismo inexorável, que quase toca nos objetos para poder insinuá-los, já que não é mais possível dizê-los com os reforços da complacência."
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A TIMIDEZ DO MONSTRO (SEIS)
REVISTA VOGUE (POR RONALDO BRESSANE)"FREESTYLE
Para Scott escrever é andar de skate, deslizando por corrimãos, assustando pedestres, carcomendo a madeira do shape na irregularidade do cimento como quem molda o intelecto batendo a cabeça no muro, no chão, no vão entre as coisas que se perdem velozes na retina. A prosa de Voláteis, segura e fixa à narrativa, tem certamente berço na poesia estilhaçada de Elrodris [pseudônimo do orangotango], um monstro gentil que vê o mundo de lado, captando-lhe o rabo, sem jamais buscar compreendê-lo ou justificá-lo. Sendo assim, (...) advoga em causa própria e mete nas livrarias também um livro de poemas: A timidez do monstro [Objetiva], edição lindamente ilustrada pelo genial Guilherme Pilla (...) Por falar em sk8:
skate
rápido, só enxergo vogais
quando tento sorrir
o pescoço dá um rabo
de azulejos quebrados”
Elipses violentas, fragmentos cortantes de imagens aparentemente sem sentido, tudo manejado por uma linguagem entre o prosaico e o difícil. Aqui, uma espécie de poética do susto:
metro
urgir o medo que causo,
lembrar: contra ele mal atrevo
rodar com o pescoço da negação
cruzar ruas no escuro
[assoprar a ferida da risada]
cuspir palavras com as mãos
algo que há de ficar no rosto,
algo há de entalhar
estes restos
aqui, ó, escuta:
batidas de apresso,
não é mais coração”
Nutrida com noite [como em “primeira farda do anjo”], a poesia de Scott não é quadro pra pendurar na sala – algo que não combina com o sofá [eis uma possível definição de arte]. Fica ressoando um tempo na cabeça, entre falas nonsense e imagens desconcertantes, até que vira um resto de luz borrado, um soco inglês guardado no freezer das veias sangüíneas."
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A TIMIDEZ DO MONSTRO (CINCO)
O GLOBO (POR CRISTINA ZARUR)"LIRISMO SEM ASAS OU PROMESSA DE CONFORTO
(...) O autor não está disposto a fazer concessões, nem há indícios de querer seduzir. O lirismo oculto de Scott não tem asas, nem promessa de conforto. São versos produzindo cortes. Como cacto, pode ferir e enterrar o espinho e a estranheza no leitor. Como fotograma traz em si o recorte, o detalhe capturado fora do senso comum e da lógica cartesiana. É poesia escassa de adjetivos, mas não de verbos e imagens. As ilustrações feitas por Guilherme Pilla casam perfeitamente com os poemas. E o contraste do preto e do branco nas páginas combina com a escuridão interna dos versos. Serão versos desgarrados de sentidos? Não. Como poeta, Scott não teme enigmas ou hermetismos."
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A TIMIDEZ DO MONSTRO (QUATRO)
FOLHA DE SÃO PAULO"Com ilustrações de Guilherme Pilla, a obra é uma instigante incursão à poética severa de Scott."
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A TIMIDEZ DO MONSTRO (TRÊS)
JORNAL ZERO HORA (POR CARLOS ANDRÉ MOREIRA)"São versos que recusam o lirismo fácil e investem na fragmentação das situações. Daí também advém o título: a timidez do monstro é uma referência ao papel deslocado da sensibilidade artística frente à realidade."
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A TIMIDEZ DO MONSTRO (DOIS)
FABRÍCIO CARPINEJAR (POETA)"Paulo Scott está em guerra. Em suas poesias, destila códigos ocultos, profecias escondidas no texto, visões a serem decifradas entre os versos, palavras minadas que se forem cruzadas viram crucifixos. Scott não veio para brincar, satisfazer egos, brindar com espumantes. É um profeta, paranoicamente criativo como um profeta, com estratégias militares de um profeta. Não peça para que leia sua mão, ele vai cortá-la. Não pergunta a ele se o emprego vai funcionar, se terá riqueza, se encontrará a alma gêmea, que ele está se lixando pelos resultados, concentrado na vastidão das pequenas feridas. “Trate logo/ porque/ num lugar sempre sangra.” Em uma poética moderna e fraturada, Scott reúne o que antes alimentava poetas católicos como Jorge de Lima e Murilo Mendes ou ateus como Jim Morrison e Rimbaud: vidência e violência. Ver é prever: ver é antecipar o que vai ser pensado. Adota o sacerdócio da intuição. Há um escopo alucinógeno em seu ritmo, uma mística dentro da banalidade (que como diz Drummond, é a originalidade coletiva). Insiste em gerar o estranhamento do trivial, falando unicamente por imagens, em doação selvagem aos sentidos. Seus poemas dilaceram, não organizam absolutamente nada. É um ato agressivo que só o amor pode gerar, ainda que não seja compreendido na hora. São poemas insones, longe da lógica do sono, e sim imersos na falta de lógica da ausência de sono. Mantêm o estado alerta da descontinuidade e da ruptura com um pensamento hierárquico (tudo tem valor), de satisfação ao consumidor. Scott mostra que o excesso de consciência deforma, ao contrário do que se acredita e se credita à perda de consciência e ao inconsciente. Ele desorbita a natureza, sexualiza cada elemento. Muda o gênero da escuridão (fica masculina), fala da gravidez do limo ou narra o ato de felação com a luz: “lambe/ lambe/ é aqui”. O sacrifício da intencionalidade significa em ganho de experimentação. O autor produz o desconhecido da linguagem a partir de junção de vocabulários amplamente conhecidos. O poema tem vida própria, que cabe ao autor admirar ou assistirr, não interferir. Nesse sentido, o escritor colabora para o efeito, a instantaneidade (mais do que espontaneidade) da nomeação. Preconiza a visualização pela cor, ao invés de sinalizar a forma pelo contorno da figura. A infância é cinza, a adoração é amarela, a noite é verde.
“foi movimento de asas,
agora, é apenas
uma cor difícil”
São planos de um filme, que expressam a consciência autoral ao colidir suas imagens, e nunca agrupando as tomadas em uma seqüência linear. São objetos vivos, que não se fixam. São retratos verbais distorcidos e desmontados. Pela atuação freqüente de fanopéias, Scott abre espaço para desvios, sem nexos explícitos, expondo por fragmentos um caos psicológico, característico do instante único e irrepetível da percepção. O que importa é a paixão da percepção, desprezando esclarecimento e juízos morais. A plasticidade termina por gerar um laconismo, dando autonomia para as margens. Poesia do absoluto, de humor reprimido, que se faz de descobertas descarnadas e imprevistas.
“espirro contra a vidraça
borboleta de asas
opacas.”
O que são asas opacas? Não adianta questionar. Pois não se trata mais de asas, porém da soma do espirro e do vidro, que, juntos com a borboleta, atingem a opacidade das asas. Não existe a generalização conclusiva das cenas, um final propriamente. Os elementos aparecem pelo valor de suas partes. A justaposição remete a algo novo. Nem uma coisa nem outra. O poema utiliza fração dos signos para formar um corpo distinto. É curioso perceber que Scott, mesmo embevecido da virtualidade surrealista, aposta na sublimação romântica. “Entre as coxas, a erva se guarda.” Canta a lealdade da mulher, a fidelidade feminina, apesar do podre ao derredor, da dor, da doença da posse e da descrença insana dos dias. “Você não adivinha a saudade que me veio quando o efeito do veneno passou.” O mundo externo é um provocador da dissolução interna. “Luz de boate/ dentro das/ veias azuis”. O mundo que se promete protegido na timidez infantil transforma-se em medo adulto da invasão da realidade pela casa, onde “mendigos aguardam a surra no fim da tarde de quarta feira”. A ameaça encorpa o pânico e aumenta a fobia social. Não se trata, portanto, de um diálogo do eu com os outros, mas da incompreensão do outro nos outros, em uma despersonalização gradual, dolorosa e necessária. “Sobreviver demora”, ensina o monstro tímido."
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A TIMIDEZ DO MONSTRO (UM)
VALÉRIO OLIVEIRA (POETA)"(...) Os monstros do Paulo têm essa capacidade maluca de cegar / De furtar o olho alheio / (...) A poesia do Paulo também tem essa força / É risco de lâmina no olho bom. Lâmina-Buñuel: direto no direito"
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